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Fim do arrastão de Cinzas: quando legisladores esquecem que o Estado é laico

Fim do arrastão de Cinzas: quando legisladores esquecem que o Estado é laico

A discussão sobre essa proibição é regular e deveria acontecer, independente de sermos a favor ou contra.

Pôr fim ao arrastão da Quarta-Feira de Cinzas pode ser considerado um símbolo das desnecessidades que tramitam nos legislativos brasileiros. E foi Salvador que largou na frente nessa corrida para legislar sob a ótica religiosa, ao invés de ser pautada pelo interesse público. Em um momento em que se defende o liberalismo econômico com afinco, com o Estado interferindo cada vez menos na vida do cidadão, interromper o arrastão é um golpe baixo até mesmo para os acenos constantes ao autoritarismo vivenciados no dia a dia.

Para os vereadores da capital baiana, é mais importante utilizar a justificativa religiosa do que a Quarta-Feira de Cinzas representa para o cristianismo do que lembrar que há a laicidade do Estado. A discussão sobre essa proibição é regular e deveria acontecer, independente de sermos a favor ou contra. É para isso que existe a Câmara, inclusive. As razões para liberar ou não a extensão da folia de Momo poderiam ser econômicas, políticas ou até mesmo estruturais, como a questão da segurança pública, por exemplo. Não foi essa a opção dos nobres vereadores: foi o lado cristão que falou mais alto.

Estão equivocados? Acredito que sim, por defender que, em algumas situações, não cabe à prefeitura, ao governo ou à União interferirem tão diretamente na vida da população – principalmente quando se espera o respeito à liberdade religiosa. Afinal, por mais que haja uma maioria cristã em Salvador, os grupos que professam outras religiões não são pequenos ou desprezíveis. Mas minorias não precisam ser respeitadas no Brasil recente, não?

Há também um debate sobre quem vai ser, efetivamente, atingido pela eventual proibição do arrastão – o texto ainda depende da sanção do prefeito ACM Neto para entrar em vigor. A capital baiana já possui festas que se estendem por mais de 15 dias, quase ininterruptamente, durante o período do Carnaval. E o arrastão da Quarta de Cinzas ficou marcado como um dia popular: é quando todos que trabalharam na folia aproveitam para dar adeus aos dias anteriores, com direito a trio elétrico e um afago na ultrajante jornada desse período.

Ou alguém acredita, piamente, que aquela massa que acompanha o arrastão é formada pela classe média e pela elite que desfilam nos circuitos como se não existisse a invisibilidade social de cordeiros, ambulantes e tantos outros trabalhadores braçais que fazem efetivamente a festa acontecer? Bata-me um abacate.

Você discorda de uma festa em um dia sagrado para os cristãos? Não vá para a festa. Mas também não celebre profanamente a festa de Yemanjá, por exemplo. Ou não estranhe quando um muçulmano iniciar o ramadã. Ou que um judeu não coma carne de porco. Ou, simplesmente, admita que vivemos na utopia de um Estado laico e que os legisladores estão pouco interessados em respeitar a liberdade do cidadão. Afinal, é melhor conseguir uns bons votos com esses palanques do que ser aquilo esperado de um vereador, um deputado ou um senador: um guardião autêntico da Constituição.

 

Com informações do site Bahia Notícias

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