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Morte na pandemia: história de angústia de quem não pôde se despedir

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Morte na pandemia: história de angústia de quem não pôde se despedir

A alegria e a generosidade que contagiava a todos é a lembrança que melhor descreve Maria José de Oliveira, de 74 anos, carinhosamente chamada de Lilia pelos irmãos, sobrinhos e cunhados. Todos se lembram da satisfação que ela tinha ao receber os parentes em férias na sua casa na praia, em Nova Almeida (ES) e das conversas longas e atenciosas. Mas a pandemia do novo coronavírus (Sars-Cov-2), em Belo Horizonte, mostra como as mais doces pessoas, como Lilia, sofrem com o isolamento imposto ao contrair a COVID-19. Mesmo acompanhada diariamente pelos familiares, por meio de videochamadas pelos telefones de enfermeiros e cuidadores, quando a doença respiratória se agravou, Lilia se viu como outros pacientes de UTI, impossibilitada de se despedir daqueles que amava. Essa dura realidade se alastra pelos hospitais mineiros e remete aos recentes relatos dos dias mais sombrios da pandemia na Itália e na Espanha, países da Europa com alta parcela de idosos, onde muitos morreram com suas últimas palavras sufocadas pelo isolamento.

“Fizemos de tudo para ter contato diário com ela, porque as visitas são proibidas. Contratamos uma cuidadora para a acompanhar de perto enquanto ficou internada, mas, quando minha tia Lilia foi para a UTI, ficamos impossibilitados de contato, até a notícia da morte dela, na manhã de segunda-feira. É muito angustiante. Uma pessoa tão amada. Essa doença tirou da gente o direito de ficar ao lado dela nos últimos momentos, de dar um velório decente e de a enterrar como queríamos. É uma doença terrível que faz nossos idosos morrerem quase como indigentes”, considera a sobrinha e afilhada de Lilia, a professora Fabiana Aparecida de Oliveira Ramos, de 42 anos. “O que fica dela foi o exemplo de atividade e de caridade. Ela era muito religiosa e estava sempre ajudando a arrecadar roupas e alimentos para os necessitados, pelas pastorais da Igreja Católica. Um exemplo que admiramos e seguimos”, afirma Fabiana.

Lilia faleceu na madrugada de segunda-feira, internada no Hospital Eduardo de Menezes, referência no tratamento de doenças infecciosas. Em seu atestado de óbito, assinado por dois médicos, consta que a causa foi insuficiência respiratória aguda, com suspeita de COVID-19. Tudo ocorreu muito rápido. Desde 2016, Lilia precisava de cadeira de rodas para se movimentar, devido a um acidente vascular cerebral. Isso lhe trouxe complicações e um dedo precisou ser amputado. Depois dessa internação para a cirurgia, no Hospital Metropolitano, há duas semanas, o seu quadro apresentou significativa piora e os médicos constataram pneumonia e suspeita de COVID-19.

Mesmo com esse quadro crítico, Lilia precisou aguardar por vaga no Hospital Eduardo de Menezes na Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) do Barreiro, da última sexta-feira para sábado, quando foi admitida. Lá, onde a maioria dos leitos é ocupada por pacientes com suspeita da doença, a comunicação com a família cessou e devido aos rígidos protocolos de visita, ela não pôde mais falar com ninguém. A família pretende se despedir dela da forma como ela gostaria, com os parentes que podem se reunir sem expôr a saúde aos perigos do contágio da doença levando as suas cinzas para descansar no jazigo da mãe, do pai e dos irmãos, no cemitério de sua terra natal, Pará de Minas, na Região Centro-Oeste de Minas Gerais.

“Lilia vai ficar ao lado dos nossos pais, que estão enterrados em Pará de Minas. Para nós foi muito triste, pois ela amava a família. Pensava na família mais do que nela própria e, por isso, fizemos de tudo para estar ao lado dela, em contato constante. Uma pessoa muito boa, muito caridosa que deixou muitas saudades”, lamentou a irmã de Lilia, a professora Maria Auxiliadora de Oliveira Stolé, de 62 anos.

"Gostava demais dela e, por isso, fazia de tudo para ela ter mais alegria. Levava iogurte, pudim para vê-la mais feliz. Ela estava sofrendo muito sem poder andar e com os problemas no pé. Teve uma suspeita de que ela estava com COVID-19 ainda no Hospital Metropolitano, mas os exames deram negativos. Para mim, foi na UPA, quando ela ficou entre os casos suspeitos, que pegou a COVID-19 e não aguentou", disse o cunhado dela, o aposentado João Batista Ferreira Ramos, de 70.

O que vem se desenhando com os idosos brasileiros trouxe enorme consternação aos europeus. Em março, quando eram poucas mortes no Brasil e as primeiras cidades mineiras como Belo Horizonte iniciavam o isolamento social, a Itália já tinha ultrapassado a China em número absoluto de óbitos pela COVID-19, com mais de 5.500 registros. O sistema de saúde havia praticamente entrado em colapso por falta de médicos, enfermeiros, respiradores, máscaras e leitos. Em meio a essa situação, um drama silencioso se abatia sobre os pacientes mais velhos e solitários, que depois de contrair a doença eram internados em hospitais com pouca chance de sobreviver e ficavam completamente sozinhos, pedindo a médicos e enfermeiros que se despedissem de seus entes queridos por eles.

Na Itália, 95% dos mortos pelo novo coronavírus tinham mais de 60 anos. O índice de mortalidade – ou seja, o percentual de óbitos entre os casos confirmados – na faixa dos 50 a 59 anos foi de 3,8%, saltando para 11,5% entre 60 e 69, 31,1% dos 70 a 79, 40,4% de 80 a 89 e 12% para os que tinham acima dos 90 anos. Em Minas Geais, a faixa etária dos 50 a 59 anos tem mortalidade de 4,8% entre as mulheres e 8% entre os homens. Dos 60 aos 69, o índice salta para 8,9% e 13,8%, respectivamente. Os óbitos femininos são 11% e os masculinos de 13,3% na faixa dos 70 a 79 anos, 10,4% e 12,3%, respectivamente, de 80 a 89, e 3,2% e 2,6% para os acima dos 90 anos.

O drama do isolamento para os pacientes com os quadros mais críticos da COVID-19 fez com que campanhas arrecadassem doações de tablets e smartphones para permitir a comunicação por videochamada com os familiares, sobretudo nos momentos de despedida. Uma das campanhas foi batizada de “direito de dizer adeus”, liderada por integrantes do Partido Democrático na zona 6 de Milão. Com o que foi arrecadado, eles compraram mais de 20 tablets e os distribuíram a pacientes idosos e moribundos no Hospital San Carlo.

Na Espanha, esse drama não foi diferente. Além dos hospitais, as casas de repouso isoladas se tornaram pontos de disseminação da doença, onde muitos idosos morreram com suas palavras de despedida sufocadas pelo isolamento. As Forças Armadas chegaram mesmo a ser convocadas para ajudar a desinfetar as casas de repouso, numa campanha sistemática contra o vírus. Nos hospitais, foi também por meio de tablets que muitos pacientes puderam se comunicar e até se despedir de seus parentes.

 

Com informações do site Estado de Minas

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